sábado, 16 de abril de 2016




Reflexão

Especificidades da Didática do Português-Princípios e Metodologias

Após as leituras efetuadas no âmbito desta reflexão, importa referir que hoje em dia, a Didática, que tem sido alvo de um percurso metodológico notável, é o cruzamento das vias pedagógica, científica e metodológica, vindo esta a preocupar-se, essencialmente, com a relação ensino/aprendizagem. A Didática é, pois, a soma de princípios, métodos e técnicas aplicáveis a uma disciplina específica, de modo a que a aprendizagem da mesma se efetue com maior eficácia. O seu intento principal é o de precisar a relação pedagógica entre docentes e discentes, para que estes últimos consigam alcançar os objetivos propostos tendo em conta as suas reais necessidades. Destarte, aprender é fundamental para as necessidades dos alunos e ensinar é primordial para que se cumpram as normas e conteúdos pré-estabelecidos. Ora, o trabalho de um docente de língua materna é, por si só, um grande desafio, pois este está perante sujeitos falantes da mesma língua, igualmente competentes e originais nos seus desempenhos (tal implica uma enorme interseção entre ambos). Segundo Reis e Adragão (1989) “…ensinar a língua materna exige uma atitude didática original e consistente”.
É de realçar que até há bem pouco tempo atrás, o processo educativo estava centrado no professor, sendo que nos últimos anos, os estudos em pedagogia têm enfatizado a importância que se deve dar às necessidades e interesses dos alunos, o que leva a que, atualmente, o ensino se centre mais no aluno e que este deve construir o seu próprio conhecimento (aprender a aprender), sendo o docente o facilitador/mediador dessa aprendizagem. Relativamente aos princípios específicos da Didática do Português, estes devem ter em conta, sempre, o aluno/aprendente, como ser único, detentor de uma competência original e de um progresso particular de enriquecimento e de aprendizagem. A atenção recai na língua padrão, no entanto, a diversidade de registos que a constituem deve ser sempre alvo de aprendizagem assente que a competência da comunicação deverá prevalecer sobre a competência linguística. O professor deve indicar aos seus alunos comportamentos verbais adequados a cada situação (falar, ler, escrever são comportamentos) de modo a que a compreensão entre as dimensões linguística, extralinguística, comportamentos verbais e não verbais seja completamente absorvida e assimilada. A função comunicativa, além da vertente informativa, possui ainda uma vertente interpessoal e social extremamente importantes para a estruturação de qualquer execução linguística. Benveniste (1966) afirmou que “… é pela língua que o Homem assimila a cultura, a perpetua e a transforma”. Parece, pois, indiscutível que a Cultura se expressa através do pensamento e que este se transmite através do discurso. Relativamente às metodologias importa salientar que estas têm como função ajudar a organizar a atitude didática do docente e despertar no aluno o interesse por uma maior variedade de competências. Importa, pois, refletir um pouco sobre o que é a metodologia: esta estuda os métodos de ensino, classificando-os e descrevendo-os sem fazer juízo de valor. Deste modo, como primeira atitude, o professor deve dar uma atenção constante ao programa proposto pelo Ministério da Educação, assim como, às caraterísticas e necessidades dos seus alunos (a finalidade é o ensino e o sucesso do aluno é o produto). De seguida, conhecer o contexto é fundamental na produção da metodologia, isto é, conhecer aspetos socioculturais: relações interpessoais, atividades do quotidiano, organização social; conhecer aspetos do imaginário: mitos (contos e fábulas); conhecer aspetos linguísticos e sociolinguísticos; conhecer aspetos históricos e geográficos de forma a desenvolver capacidades e competências mais profundas. De facto, é importante priorizar uma metodologia construída em redor da relação língua/cultura, de forma a que o aprendente avalie socialmente a sua língua e o seu prestígio e que consiga formar julgamentos sobre a gramaticalidade e aceitabilidade de discursos seus e dos outros. Neste sentido, considera‐se que deve haver uma analogia clara e alicerçada entre atividades e descritores de desempenho, a qual permita aos discentes a realização de um itinerário sólido no sentido da aquisição dos saberes contemplados no Programa. Dentro deste âmbito, importa referir que os conteúdos e os respetivos descritores de desempenho, presentes no Programa e Metas Curriculares de Português do Ensino Básico, foram concebidos de modo a permitirem formas de conjugação dos diversos domínios. Deste modo, destaca-se o desenvolvimento dos domínios da Oralidade, da Leitura e da Escrita, da Educação Literária e da Gramática. Assim, cabe ao docente, adotar as diretrizes metodológicas que considere adequadas, fazendo uso dos seus conhecimentos científicos, pedagógicos e didáticos, para a prossecução de uma aprendizagem eficaz dos conteúdos referentes a cada domínio, através de uma gestão do tempo que satisfaça o grau de exigência de cada um deles. A nível da Oralidade, a expressão verbal em interação (ouvir/falar) será o campo com mais destaque; no domínio da Leitura, a primazia será para a leitura recreativa e para a leitura interpretativa; ao nível da Escrita, o aperfeiçoamento de texto e escrita como atividade expressiva e lúdica; no âmbito da Educação Literária, o saber ler/interpretar textos e ler/escrever para a fruição estética é fundamental e, por último, no domínio da Gramática, é necessário direcionar a aprendizagem para os aspetos fundamentais da morfologia, para o conhecimento/reconhecimento de classes de palavras e para formas de organização do léxico. Independentemente da metodologia selecionada, cumpre salientar a importância a conferir aos seguintes aspetos: a organização dos conteúdos programáticos; a qualidade e a adequação da informação; o recurso a textos progressivamente mais complexos e sua análise; a compreensão inferencial e a memória; a compreensão de regularidades que levam à aquisição de quadros concetuais de referência e a exercitação. As metodologias deverão ter sempre em conta a aprendizagem do aluno ao nível da competência linguística; lexical; gramatical; fonológica; sintática; semântica; morfológica; sociolinguística; discursiva e comunicativa. Os procedimentos metodológicos poderão passar por: brainstorming (conhecimento inicial do aluno sobre o conteúdo); aulas expositivas dialogadas; leituras orientadas de textos/imagens e leitura de aprofundamento (PNL/PRL) individual ou coletiva (de preferência ativas); relatos orais; trabalhos individuais e/ou de grupo; produção de textos; atividades de síntese e resumo; pesquisas sobre um tema; tarefas de assimilação de conteúdos; reflexão sobre a língua; debates dirigidos; análise crítica de vídeos ou filmes; entrevistas; entre muitas outras.
Penso que o mais importante, é a “paixão” do professor pelo seu trabalho e o “bom senso” deste, pois ambas, concomitantemente, permitirão ao docente definir e optar pelas melhores metodologias a usar, de forma a proporcionar um ensino de qualidade aos seus discentes, despertando nestes um pleno interesse e gosto pela língua materna, assim como, uma maior e melhor competência linguística, a qual utilizarão, de forma permanente, ao longo de toda a sua vida nas mais diversas situações.





Cláudia Mota Silva



Referências Bibliográficas:

- Reis, C., & Adragão, J. (1989). Didática do Português. Lisboa: Universidade Aberta.

- Ferraz, Maria José – Ensino da Língua Materna. Coleção: O Essencial sobre Língua Portuguesa. Lisboa: Caminho, 2007. Introdução à Didática do Português.

- MARQUES, Ramiro -Documentos de apoio às disciplinas de Didática do1º CEB e de Desenvolvimento Curricular e Diferenciação Pedagógica.

Outras Fontes:

- Ministério da Educação, Departamento da Educação Básica- DEB- (2001). Currículo Nacional do Ensino Básico- competências essenciais. Lisboa: Ministério da Educação.

- Programas e Metas Curriculares de Português do Ensino Básico, 2015.

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